
Ângelo e Rebeca
O que eu desejo a você em 2010?
Felicidade de 24 quilates e muitos risos.
Desses que os olhos dos enamorados traduzem.

Ângelo e Rebeca
O que eu desejo a você em 2010?
Felicidade de 24 quilates e muitos risos.
Desses que os olhos dos enamorados traduzem.
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Arte: Salvador Dalí
É compreensível a preocupação com o amanhã; é imprescindível a ocupação com o hoje; é necessário desocupar-se do ontem.
Quando chega dezembro bate aquela sensação de que o ano foi curto, de que o tempo voou e que os abraços se extraviaram no caminho. É hora de abrir o coração para balanço.
Perdidos na ilusão das horas, corremos contra o calendário que insiste em nos apressar cada vez mais, e mais apressados do que nunca buscamos abraçar quem não abraçamos e dizer da falta que nos faz.
Não ter cumprido integralmente o que nos propomos no início do ano não é motivo para desânimo, é razão para mais empenho. Pois ao fim de um ciclo há sempre a possibilidade de avaliar a trajetória e corrigir o rumo. E ainda que muitas vezes tenhamos os pés engessados ao iniciar a prova, desistir está fora de cogitação.
Foi mais ou menos assim que me senti este ano: com um pé engessado e numa corrida com obstáculos. Múltiplos e desconhecidos obstáculos para os quais nunca estive preparada.
Mas sou uma pessoa de sorte e durante o percurso não faltou quem oferecesse água pra aliviar a sede, unguento pra sarar as feridas e abraço pra afastar o medo.
Problemas são variáveis neutras, todo mundo tem. Diz-me alguém que completou a prova antes de mim, mas retornou ao circuito pra prestar solidariedade sem a qual seria impossível vencer todas as barreiras.
A verdadeira generosidade não espera dezembro para se manifestar; antecipa o calendário e faz de cada dia um Natal carregado do sentido de compaixão e humanidade. Faz cada dia ser único sem ser último e se alegra com a promessa do encontro, como se fosse amanhã.
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A vida precisa ser testemunhada, porque as lembranças solitárias tendem a desbotar, tornarem-se vagas, embaraçarem-se e até desaparecerem. Aquele que testemunha a sua vida ajuda-o a lembrar quem você é. Algo semelhante é dito pela personagem de Susan Sarandon, no filme Dança Comigo? (Shall we dance?). Um dos diálogos mais bacanas do cinema, na minha opinião.
Faz muiiito tempo, eu morei um ano no Japão. Tudo aconteceu muito rápido: uma oportunidade, uma bolsa de estudos, uns quarenta dias de preparação e quando dei por mim, estava em Tokyo – um lugar onde eu nunca imaginei estar.
Não tenho palavras pra descrever os efeitos de tal experiência (emocional, física, sensitiva, psíquica) que este ano causou a uma garota amazônida de 23 anos. Naquele tempo, não havia Internet, e-mails, Google earth e o conceito de “mundo globalizado” era bem precário, se comparado aos dias atuais.
Estava só, e do outro lado do mundo, sem conseguir diferenciar detergentes de shampoos em um supermercado. Minha condição de minoria estava na cara. E, neste novo mundo, minhas referências, que aquela altura já não eram muitas, de pouco valiam. Era uma folha de papel em branco, começando praticamente do zero.
São em situações como estas que conhecemos pessoas que marcarão nossas vidas pra sempre. Harumi Hashimoto (o bailarino na foto) era o diretor da televisão onde estagiei e responsável direto pelo meu estágio. Lembro a primeira vez que nos vimos, quando fomos apresentados. Não tínhamos a menor idéia de como lidar um com outro e sabíamos que teríamos um longo ano pela frente para resolver este impasse.
Hashimoto (e outros inesquecíveis personagens que conheci naquele ano), aos poucos, e com uma paciência realmente oriental, foi me apresentando o Japão. Explicando os costumes, mostrando os caminhos. Corrigia minha fala e minhas gafes. Certificava-se de que eu teria companhia e, uma vez por semana, eu jantava com ele e a esposa. Matriculava-me em cursos de Ikebana, confecção de sushi, cerimônia do chá … cada mês era uma novidade. E ninguém mais vibrava tanto com meus progressos na terra do sol nascente.
Hashimoto também me viu chorar algumas vezes e eu realmente evitava fazer isso na frente dele porque nada mais deixava aquele homem tão desconcertado.
Por fim, estava novamente naquele aeroporto de Tokyo. Aquele ano surreal tinha acabado. Hora de voltar pra casa. A despedida foi simplesmente terrível. Foi a primeira vez que nos abraçamos – acho que eu abracei na verdade. Abraçar não fazia parte dos costumes. Mas eu lembro da tristeza em seu rosto. Prometemos escrever (cartas) e não perder contato.
Uma década e meia depois, quase já não lembrava mais de tudo isso, quando, na semana passada, um e-mail com caracteres japoneses bateu na minha Caixa de Entrada. Por pouco não deletei, achando que era spam. Depois de tanto tempo, Hashimoto conseguiu me achar. Por alguns minutos fiquei em choque. Devo ter passado mais de meia hora olhando o e-mail, lendo e relendo uma tradução bizarra para o português.
Agora, já aposentado, meu querido amigo dedica-se a dois prazeres: fotografias e dança de salão. Este mundo é mesmo uma ervilha!!
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Filtro solar, reparador de pontas [para cabelo], celular, pen drive, cartão de crédito são invenções formidáveis que trazem praticidade ao dia a dia. A lista é bem mais extensa e varia de acordo com a necessidade e gosto pessoal de cada um. Mas uma coisa é certa: depois de incorporados à rotina, é duro abrir mão de uma delas. Entre máscara para cílios e carro há quem opte pelo primeiro item.
Mas eu pertenço ao grupo de pessoas cujo estágio evolutivo não alcançou o ecologicamente correto, e ficar sem carro ainda é um transtorno.
É admitir a dependência e assumir os riscos. De cara, a primeira vez que me envolvi em acidente de trânsito demorei pra entender o que as seguradoras chamam de “sinistro”. A atendente perguntava se eu queria comunicar o tal sinistro, e eu insistia que havia sido apenas um acidentezinho… Mas essa inocência já se perdeu há muito tempo e nos últimos três meses gastei toda minha cota anual de colisão de trânsito.
A mais recente foi um desaforo e depois da notícia de que ficaria sem carro até 31 de dezembro, tomar emprestado o carro de alguém me pareceu uma saída razoável.
Localizada a vítima, até curti a ideia de desfilar a bordo de um carrão. Mas antes precisava regularizar uns documentos no departamento de trânsito. Tarefa fácil se comparada ao aborrecimento de ficar a pé. Escolhi uma tarde de domingo para apanhar o veículo já que o trânsito é mais tranquilo e em geral não há blitz nesse horário.
O upgrade demorou pouco e na volta pra casa o cabo da embreagem do possante arrebentou e a bateria arriou me deixando em apuros. Detalhe complicador: era domingo e chovia e nenhum mecânico em completo domínio das faculdades mentais trocaria o jogo de decisão do campeonato brasileiro por um programa sinistro desses.
A primeira medida foi liberar a pista e rezar para que a solidariedade não viesse numa viatura policial. Afinal, além das pendências de documentação, havia mais duas questões: o veículo não possui seguro e não está em nome da pessoa que me emprestou…
Nessas horas é que se descobre que ter o número do telefone de um guincho na agenda é mais importante do que o telefone do Papa. Nem preciso dizer que não tinha… Ok, nada que uns quinze telefonemas não resolva, se a bateria do celular resistir. Resistiu, e meus nervos também.
Quatro horas mais tarde tomava, sossegada, um delicioso cappuccino no shopping; e quatro dias depois fui tratada por “madame” ao estacionar a máquina numa dessas lojas de acessórios para auto. Ah, como nos enganamos com as aparências!
P.S. Josi, que maravilha! Agora posso ir à sua festa!
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Sei que não é desculpa (pra ter passado tanto tempo longe), mas estava numa daquelas fases onde você se entrega sem resistência à velocidade com que os dias passam, torcendo para que simplesmente passem em paz.
Tem períodos em que os dias vão ficando mais velozes, as tarefas se automatizam e nada disso significa que você esteja realmente prestando atenção. É a paisagem passando rápida demais pela janela. Hipnoticamente rápida.
Esse é o grande perigo da existência: virar espectadora da própria vida. Assim como perder tempo e desperdiçar vida com acontecimentos banais. Nem bons, nem ruins, apenas as querelas do dia a dia. E, em meio as aporrinhações, vamos envelhecendo a passos firmes.
Como é difícil quebrar o ciclo auto sustentado pela Lei da Inércia e voltar a assumir o “controle”. Dar-se conta da vida a sua volta. Dar-se conta da própria vida e querer vivê-la intensamente.
Acontece que, ao longo do caminho, nem sempre estamos apaixonados por ela, a vida. Às vezes queremos agarrá-la com os dentes e não desperdiçar uma única emoção, ou um único minuto. Outras, simplesmente estamos correndo, sem saber para quê, nem para onde, nem achando que tenhamos que assimilar nada durante o percurso.
Aí, de repente, acontece um “estalo”. Difícil de explicar, por isso vou chamar de “estalo”. Como um insight, onde você sente falta de fazer coisas. Onde você sente falta de você mesma, de quem costumava ser, de ter projetos e partir com ganas para a velha lista de pendências antes que mais um ano acabe.
Encontrar o caminho de volta é um exercício constante. Assim como tentar fazê-lo melhor.
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O que a semente recebe como morte, a árvore concebe como vida.
Talvez algo semelhante se passe com a alma humana, que ao experimentar a escuridão da cova duvide da existência do sol.
E quando a semente vinga e dela brota frondosa árvore, tem-se a mais autêntica vingança da natureza: a vida desmentindo a morte, a certeza contrariando a dúvida.
Há dias em que me sinto como se tivesse sido enterrada viva. Sem ar e sem luz. Mas se tem algo em que acredito é no triunfo do bem sobre o mal, da verdade sobre a mentira, da luz sobre as sombras. Então espero.
Enquanto aguardo a brisa soprar meu rosto, retorno ao quintal da minha infância e brinco com a menina teimosa que fui um dia e nunca contei a ninguém. Pensando bem, não carecia contar. Bastava tão somente observar o ranking de surras de cada um dos oito irmãos. Nunca perdi a primeira posição!
Minha mãe me chamava pelo carinhoso apelido de pé-de-vento, e jamais duvidou da autoria dos cacos de louça espalhados pela cozinha.
Hoje me descubro mais parecida com ela do que gostaria de admitir. E apelo à teimosia para que outra vez me salve.
Leva muito tempo até se converter defeito em virtude, e minha teimosia agora atende pelo nome de obstinação. Isso também é vingar-se.
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Na série Sexy and the City (na quinta temporada, creio), a personagem Carrie Bradshaw é dispensada pelo namorado por um post it. Vocês lembram? Um quase-torpedo colado ao computador informa, pela manhã, que o cara com quem ela passou a noite não vai voltar. O motivo do rompimento: a incapacidade dele em conviver com o sucesso dela.
Lembrei daquele episódio, hoje, porque li um artigo sobre uma artista francesa que, dispensada pelo namorado, por e-mail, resolveu transformar o fato em material para uma “instalação”. Ela abriu espaço para que outras mulheres relatassem experiências semelhantes e a mostra correu mundo.
Os homens também devem carregar esses fantasmas, é claro, mas conheço muito mais casos – alguns hilários – de amigas do que de amigos que levaram fora. De qualquer forma, sou daquelas que preferem a mensagem ao desaparecimento. Palavras doem, é verdade, mas a relação não fica suspensa, presa no vácuo entre a frustação e a esperança. Eu prefiro o post it.
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O foguete Brasil, sil, sil, sil
Há uns dez anos, estive na República Tcheca. Bonito país (povo, nem tanto), cultura impressionante, história de luta e superação. Um exemplo de sociedade. Fiquei impressionada com o conhecimento que eles tinham do Brasil. Ouvi música brasileira no comércio de Praga (Paralamas, Skank e outros grupos populares) e elogios ao nosso presidente da época, FHC, que chegou a ser comparado ao presidente deles, Václav Havel; ambos, intelectuais.
Por outros países, também, senti que havia uma espécie de admiração pelo Brasil. Não o Brasil do carnaval, do futebol, das praias e mulheres com biquinis. Fora do clichê. Admiração pela expansão do País, a retomada da democracia e o dinamismo da economia. Todos, sem exceção, negavam o título de terceiro mundo ao Brasil. Fiquei muito orgulhosa.
E, com Lula, a crise financeira, a Olimpíada, a Copa do Mundo, o Brasil vai ganhando corpo no noticiário externo. Acaba se tornando, quem sabe, o País da moda, com as entranhas expostas para o bem e para o mal. Para os pessimistas, muito mais mal do que bem, mas, enfim, do jeito que somos. Será que já decolamos afinal?
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Existem coisas que não falo porque sei que as pessoas se incomodam. Além disso, é desnecessário provar minhas crenças e “evangelizar” os amigos. Minhas convicções me servem, mas entendo que essas nada valham àqueles que me cercam.
Não sei explicar porque acho besteira viver procurando “um sentido para vida”. Observo ao redor, todo o sofrimento e o desgaste de quem busca, de qualquer forma, um happy end e explicações para quando as coisas dão errado. “É o destino” não me parece ser um argumento mais coerente. São nossas próprias opções levando a gente aos lugares e ativando reações das outras pessoas. Para mim, é simples assim.
Não temo o místico, o mágico, o irreal. E os sonhos são meras fantasias. Estar viva é o que faz sentido na minha vida. Errar, acertar, perder, ganhar… Tudo isso está no pacote, inclusive aceitar quem pensa totalmente diferente.
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A alegria é o estado natural da alma. E se a tristeza fica, a alma evapora.
Há dias que acordo em estado líquido, e nada mais me diferencia da chuva escorrendo na vidraça. Outras vezes adormeço sólida, e me confundo com as paredes do meu quarto, embora sinta frio nos pés e nos ombros.
Tristeza e o medo me fazem sentir frio.
Quisera notar tais sinais nas pessoas que amo, para quem sabe aquecer na medida certa e proteger sem sufocar.
Chega um momento em que os filhos precisam adquirir anticorpos emocionais, e crescer quase sempre dói. E não há como lhes tomar o lugar e oferecer o corpo à febre.
Quando os filhos ainda são pequenos tentamos lhes mostrar que não há motivo para temerem o escuro. Quando eles crescem, as mães é que têm medo das sombras.
Não existe receita, nem reza, nem antídoto que proteja as crias das dores do mundo. Onde se escondeu aquele que era só sorriso? Onde está aquele sorriso que era só alegria?
Hoje entendo melhor a amiga Silvana e sua incomum disposição para estar perto das pessoas quando a dor as visita. Sua compaixão pelos desprovidos de sorte, apesar de tantas vezes incompreendida, não a impede de amparar, acolher. Ela sabe que a tristeza é uma bala perdida para a qual não há abrigo seguro.
Ela sabe que a solidão agrava a dor.
Enquanto a maioria de nós está surda, cega e demasiadamente ocupada para reparar na aflição do outro e ajudar a curar as feridas, Sil é a primeira a apresentar-se e dizer: “pode contar comigo”. E não é força de expressão, é abraço de urso.
Quantas vezes temos os dias sentenciados à agenda de trabalho, aos compromissos sociais, aos afazeres domésticos, e não sobra tempo para acolher os feridos do caminho?
O que fazer quando o demônio do meio-dia ameaça encobrir o sol?
Há dias em que só as perguntas vêm tomar café comigo.
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