É muito ingrediente…

Dos incontáveis desejos acalentados no meu peito desassossegado, assistir ao fenômeno do hanami na terra do sol nascente talvez seja o mais improvável de vir a ser realizado. Apesar da distância também geográfica, vez por outra me pego imaginando estendida sob as cerejeiras em flor, testemunhando sua breve, intensa e admirável florada.

Se a alegoria da curta jornada das flores de cerejeira cai bem como metáfora da fragilidade humana, penso que também se aplique às relações afetivo-sentimentais, às histórias de amor em geral e de casamentos, em particular – formais ou não.

Se admitirmos que cada história de amor signifique uma temporada com início e meio felizes, será mais simples e menos doloroso aceitarmos que história com final feliz cabe melhor em páginas de ficção que de realidade. Um ponto de vista mais prático que pessimista, vamos admitir.

Sempre me pareceu sombrio o prenúncio “até que a morte os separe”, e de uns tempos pra cá tenho testemunhado alguns raros romances que chegam ao fim com o par vivinho e feliz, cada um a seu modo torcendo pelo sucesso do outro na estação seguinte.

Estamos longe disso, mas não seria absurdo supor que seríamos mais felizes se parássemos de traduzir o fim de uma história de amor como falência, fracasso, derrota.

A maior dificuldade do rompimento talvez resida na falta de coincidência no desenlace. E a experiência demonstra que o primeiro a admitir que o momento de partir tenha chegado vai arcar com a fatura do desamor, embora todos saibam que decididamente não é o tempo de duração de uma relação que determina se o romance deu certo ou não.

Façamos um inventário afetivo. E provável que não encontremos história de amor que não tenha tido começo e meio felizes, ainda que tenha havido algum descompasso antes de assinalar the end.

Depois de viver uma árvore inteira, é natural que as flores caiam. E isso não tem nada de trágico. É apenas a semana do hanami.

Um ano bom

O primeiro dia de sol nos encontrou preguiçosas e com uma leve ressaca, mas a surpresa do dia ensolarado foi maior. Após semanas de raios e trovoadas, vivendo entre chuva ou ameaça de, aquele dia de sol parecia enfim marcar o começo de um novo ano.

A noite anterior foi o primeiro reencontro com as amigas após o recesso. No final do ano passado, fizemos a confraternização de costume. O ritual de, juntas, darmos adeus ao que ficou pra trás. Mas há sempre a correria e o stress desse período, uma súbita pressa para que finalmente acabe. Daí, cada uma parte para seu destino natalino e alguns merecidos dias de descanso.

O reencontro foi marcado por um jantar aconchegante, como toda amizade deveria ser. Boa comida, vinhos e muitas novidades não deixaram a mesa um só minuto.  Tampouco a garra e a disposição para operacionalizar novos/velhos planos. Contar com a certeza da amizade para recomeçar é lembrar que não partimos do zero – afinal, dizem que as grandes verdades estão impregnadas de clichês!

Inevitavelmente, o jantar evoluiu para festa do pijama.

No dia seguinte, enquanto nossa anfitriã Raquel, ainda dormindo, preparava o café, eu e Zil, as amazônidas desbotadas, jiboiávamos no quintal, completamente absortas pela luz forte do sol. Como o sol é necessário! Como é bom ter um quintal onde é possível pisar na grama (areia ou cimento) e pegar sol!

O sábado ainda se revelou muito mais produtivo do que prometia. Bom presságio para o recomeço de um ano que promete tanto.

Às vezes, somos as autoras das mudanças que buscamos – e trabalhamos duro para que elas aconteçam. Noutras, elas simplesmente nos atropelam e nos obrigam a escolher. E há ainda, aquelas situações fantásticas, quando as duas coisas acontecem juntas.

Me fez lembrar de “Um ano bom” (A Good Year – 2006), filme que conta a história de um investidor inglês, um tanto inescrupuloso que, por uma daquelas voltas inesperadas da vida, herda uma vinícola decadente no interior da França. O que parecia ser apenas mais um negócio, acaba transformando por completo a vida do sujeito. E o que seria um provável ano bom, vira, na verdade, uma vida ótima!

Algo me diz que este será um ano realmente bom.  E que desejar apenas saúde e paz não será suficiente.

Dedé, só faltou você!

Brie com geléia de amoras silvestres

Fonte: Getty Images / Rich Lam

Todo amor é eterno. Finita é tão-somente a estação em que se compartilha a experiência de estar juntos num período delimitado no tempo. Finitude é atributo da relação.

O amor pra sempre viverá porque não há onda capaz de apagar ou vento que mude de lugar a memória do desejo experimentado sob a cumplicidade da chuva e a conspiração de um temporal.

Toda emoção eterna será se ainda que por um segundo tenha impregnado o éter do mundo ou de um quarto, a atmosfera do vão entre dois andares, ocupado um poço de elevador, iluminado um fosso no peito.

Toda paixão é uma tentativa desesperada de desfibrilar o coração… Com as mãos. A paixão é passaporte com visto só de ida para lugares proibidos.

Todo tesão há de se perpetuar, se fez um dia transpirar a pele, confundir os corpos, suspender a respiração numa fração de eternidade.

Todo amor professado é uma insanidade, uma temeridade, um atentado contra a morte!

Ainda que amar só não baste, não seja suficiente [e talvez por isso o desejo de que o elo seja confirmado, crismado, eternizado], Ama-se. Ama-se porque o amor legitima a existência, atesta a vida, faz sorrir os infelizes.

O amor [que sorte!] me reconcilia com minhas cicatrizes.

 

É só não ter pressa

Fonte imagem: google

O inesperado pode acontecer a qualquer momento, qualquer dia, até mesmo seis horas antes do fim do mundo.

Coisas inexplicáveis podem acontecer, e é provável que aconteçam porque, afinal, o improvável não quer dizer impossível.  E é bom que seja assim. É bom que o improvável esteja a serviço do desafio.

E o chamado ao desafio começa no instante em que o cordão azul é cortado.

Daí em diante não há mais garantia e “transformar o tédio em melodia” passa a ser uma obsessão para aqueles que não se resignam diante do improvável, e para seres que já nascem com sede de náufrago.

A vida é um convite à loucura sã, um apelo, uma provocação absurda. Só nos resta dizer sim ou não.

Há convites que são assombrosamente desafiadores; outros trazem em si a urgência de quem vai salvar uma vida, uma urgência de sala de parto.

E eu parto porque meu corpo é setenta por cento água e trinta por cento agonia. Eu parto todas as vezes que preciso resgatar minha alma quando ela se extravia.

Parto na esperança de salvar a vida da menina teimosa que teima viver em mim, a menina que tomava banho de balde, que se precipitava na chuva, que se banhava no rio.

Eu digo sim porque a vida já diz muitos nãos e eu não posso sufocar a menina, a mulher, a multidão que reside em mim. Eu digo sim porque antes de mim o amor andou muitas léguas pagando promessa, e quando minhas mãos tocaram suas costas entendi, enfim, que é só não ter pressa.

ELUSÃO

O mundo vai acabar em 2012 porque o tempo é bendito e impiedoso.

O mundo vai acabar como acabou em dois mil e onze e nos instantes e séculos anteriores para todos que nos precederam na discussão com Deus.

O mundo acaba todos os dias para quem deixa de acreditar no sonho, para quem deixa de acreditar na vida, no amor, em si mesmo ou na possibilidade do encontro.

Ainda que a vida seja efêmera, ainda que sonhar pareça absurdo, ainda que o amor seja a mais autêntica das ilusões, ainda que cada um de nós em algum momento se aproprie das palavras do poeta e, com toda propriedade, proclame: “Não sou nada. Nunca serei nada. Não posso querer ser nada” o mundo vai acabar e nada podemos fazer, a não ser agora.

Submissa à hierarquia das horas, rogo aos deuses do tempo que o mundo não acabe pra você em 2012, nem pra mim, nem pra nós. Não hoje, não assim, não agora. Não sem antes ter visto Paris pelos teus olhos, ter me embriagado na Toscana ou me refugiado na Turquia ou no teu abraço. Não sem antes ter estado em algum lugar no espaço donde possa tocar o infinito na tua companhia.

Não sem antes perder outra vez a razão porque o coração mudou outra vez de lugar.

Lembrei de você

Guardo a ilusão de que ao inaugurar um novo ano algo de bom e especial deva acontecer na minha vida. E no inevitável balanço de fim de ano, encontrei uma forma de o resultado ser positivo, apesar das evidências contrárias. A mágica consiste em avaliar o ano a partir de uma única variável: a mais conveniente; observar o caminho percorrido do ângulo mais favorável. Parece trapaça, e em alguma medida é.

Na prática funciona mais ou menos assim: se no plano afetivo-sentimental a condição estiver melhor em relação ao ano anterior, isolo as demais variáveis e considero apenas essa; se estiver pior, escolho o plano profissional ou financeiro ou familiar ou qualquer outro que esteja positivo comparado ao quadro de antes. É isso ou os pulsos desencapados.

Não conheço outro jeito. Pelo menos no mundo em que eu vivo são raras as criaturas que se encontram integralmente satisfeitas em todos os aspectos da vida. Para a maioria, há sempre uma ausência a ser preenchida. Ou ausências, múltiplas.

Outra maneira igualmente simples de fazer o balanço pessoal  é escolher uma palavra que sintetize o que se viveu nesse fragmento de tempo que convencionamos ano. Pensar numa palavra que encerre o conjunto ou o resultado das experiências acumuladas nas 8.760 horas de que dispomos no intervalo de doze meses.

GRATIDÃO é palavra que mais se aproxima do que sinto em relação a 2011.

Gratidão pela vida, pelas pessoas com as quais convivi, troquei impressões e referências; gratidão por me encontrar viva e em paz com meu coração; pelo que ouvi, li, falei, partilhei, colhi, escolhi, descobri, explorei, ofereci, gravei.

De tudo que foi dito [verbalizado ou não],  “lembrei de você” mudou um daqueles dias cinzentos.

Brindo todos os encontros sob o sol e sob a chuva, todos os abraços, todos os risos, todos os sins e todos os sons. Tim-Tim!

 

Assim me contaram

A paixão é um ato de vandalismo num coração desavisado.
É miragem, hão de dizer.
Não há como ser diferente, e não ser clichê.

O apaixonado não sabe ser senão indigente.
Pois  “sua alma vive num corpo alheio”.
Ou jaz extraviada entre perdidos e achados.

Lá. Num lugar imaginário
entre o sétimo e o centésimo andar.
Um não-lugar um lugar-comum um lugar nenhum.

Se o corpo em estado aflito se encontra
nua e inquieta está sua alma, sem culpa e sem calma
em descompasso com a razão.

Entre as claridades do céu e as sombras do umbral
tudo que não tem sentido encontra sentido
na contradição.

Entorpecidos os sentidos se confundem
se mesclam se fundem se desesperam de violência  e ternura.
Ah, a paixão, essa matéria obscura!

Todo apaixonado experimenta lava incandescente
nas veias, assim me contaram.

Alma inquilina amedrontada pela ameaça de despejo.
No desejo um lampejo, único, supremo, sublime e fugaz
Que sentencia Émilies, Camilles, Ediths, Marias…

À felicidade
Inda que infernal.