
Dos incontáveis desejos acalentados no meu peito desassossegado, assistir ao fenômeno do hanami na terra do sol nascente talvez seja o mais improvável de vir a ser realizado. Apesar da distância também geográfica, vez por outra me pego imaginando estendida sob as cerejeiras em flor, testemunhando sua breve, intensa e admirável florada.
Se a alegoria da curta jornada das flores de cerejeira cai bem como metáfora da fragilidade humana, penso que também se aplique às relações afetivo-sentimentais, às histórias de amor em geral e de casamentos, em particular – formais ou não.
Se admitirmos que cada história de amor signifique uma temporada com início e meio felizes, será mais simples e menos doloroso aceitarmos que história com final feliz cabe melhor em páginas de ficção que de realidade. Um ponto de vista mais prático que pessimista, vamos admitir.
Sempre me pareceu sombrio o prenúncio “até que a morte os separe”, e de uns tempos pra cá tenho testemunhado alguns raros romances que chegam ao fim com o par vivinho e feliz, cada um a seu modo torcendo pelo sucesso do outro na estação seguinte.
Estamos longe disso, mas não seria absurdo supor que seríamos mais felizes se parássemos de traduzir o fim de uma história de amor como falência, fracasso, derrota.
A maior dificuldade do rompimento talvez resida na falta de coincidência no desenlace. E a experiência demonstra que o primeiro a admitir que o momento de partir tenha chegado vai arcar com a fatura do desamor, embora todos saibam que decididamente não é o tempo de duração de uma relação que determina se o romance deu certo ou não.
Façamos um inventário afetivo. E provável que não encontremos história de amor que não tenha tido começo e meio felizes, ainda que tenha havido algum descompasso antes de assinalar the end.
Depois de viver uma árvore inteira, é natural que as flores caiam. E isso não tem nada de trágico. É apenas a semana do hanami.





