
O inesperado pode acontecer a qualquer momento, qualquer dia, até mesmo seis horas antes do fim do mundo.
Coisas inexplicáveis podem acontecer, e é provável que aconteçam porque, afinal, o improvável não quer dizer impossível. E é bom que seja assim. É bom que o improvável esteja a serviço do desafio.
E o chamado ao desafio começa no instante em que o cordão azul é cortado.
Daí em diante não há mais garantia e “transformar o tédio em melodia” passa a ser uma obsessão para aqueles que não se resignam diante do improvável, e para seres que já nascem com sede de náufrago.
A vida é um convite à loucura sã, um apelo, uma provocação absurda. Só nos resta dizer sim ou não.
Há convites que são assombrosamente desafiadores; outros trazem em si a urgência de quem vai salvar uma vida, uma urgência de sala de parto.
E eu parto porque meu corpo é setenta por cento água e trinta por cento agonia. Eu parto todas as vezes que preciso resgatar minha alma quando ela se extravia.
Parto na esperança de salvar a vida da menina teimosa que teima viver em mim, a menina que tomava banho de balde, que se precipitava na chuva, que se banhava no rio.
Eu digo sim porque a vida já diz muitos nãos e eu não posso sufocar a menina, a mulher, a multidão que reside em mim. Eu digo sim porque antes de mim o amor andou muitas léguas pagando promessa, e quando minhas mãos tocaram suas costas entendi, enfim, que é só não ter pressa.
É só não ter pressa
- mas a vida é muito curta
se de fato boa à beça…
Eu não tenho pressa.
Tenho urgência de sala de parto,
poeta.
Um dos textos mais lindos, com o qual me identifico, desde que vim aqui pela primeira vez hà alguns anos atràs, através da Candyce.
Obrigada, Zildete, pela sua sinceridade em se expor, em compartilhar, em nos presentear com tanta sensibilidade, tanta luz e tanta beleza.
Grazie di cuore.
LuLu.