VIU COMO VOCÊ NÃO VIU?

 

FB_IMG_1431655888572 (2)

Imagem capturada do FB

Impossível escapar de um pensamento recorrente toda vez que o sinal fecha debaixo da plataforma inferior da rodoviária do plano piloto em Brasília, ou noutra avenida movimentada, e uma multidão de pessoas atravessa a faixa de pedestres, com a pressa de quem vai salvar uma vida. A própria vida, talvez. Pessoas de todas as idades e feições cruzam por um instante o caminho uma das outras pra nunca mais se repetir. Dá vontade de interromper o passo de uma delas, convidar pra sentar no gramado e pedir que me conte sua jornada: quero saber aonde vai com tanta pressa, o que faz, o que pensa, do que foge, do que tem medo. Nossos medos revelam muito sobre nós.

Se na pressa de atravessar a rua, as pessoas já não se enxergam, com os rostos concorrendo com a telinha do celular, adeus esperança de ser surpreendido com um olhar que se distingue em meio à multidão! Aliás, em qualquer lugar que se vá, todos nós nos tornamos estranhamente invisíveis. Ninguém enxerga mais ninguém porque tá postando foto do que não contemplou, apenas clicou e precisa mostrar pra alguém que também não vai ver porque tá clicando seus próprios passos. A não ser que se cometa algum deslize no trânsito ou no trato com o outro, você não será visto. Vamos de um extremo ao outro: ou sua presença não é notada ou vira notícia porque alguém filmou, fotografou e postou no ciberespaço, denunciando seu mau exemplo.

Parênteses: assim no espaço público como no ciberespaço, todo mundo aponta o pau de selfie para o outro (apontar o dedo tá ultrapassado). Mas isso é assunto para outra prosa.

Nesse nosso estranho tempo em que o semelhante se torna cada dia mais estranho porque desconhecido, outro curioso efeito é que os viajantes não têm mais história pra contar ao regressar. Ninguém mais conta as aventuras de viagem porque quem ficou sabe se o voo atrasou, de fez frio ou se calor, o que o viajante viu e o que ele não viu. Nessa toada, tem até foto de pessoas enfileiradas, de costas, de pé no corredor da aeronave no momento do desembarque, com registro do queixume de que levantar-se da poltrona antes da porta do avião se abrir, não faz o desembarque ser mais rápido. Pra não restar dúvida, o supercivilizado que fotografou a bunda das pessoas acrescenta a hashtag “fica a dica”.

Quem ficou sabe o que o viajante comeu no almoço, na janta e no café. Ah, e se foi o par que viajou, aí é que o reality fica divertido, porque ou o casal se entrega ao beijo, ou registra o beijo no cenário romântico! Nem que isso custe uma foto em que um dos braços aparece exageradamente desproporcional ao outro porque tá estendido demais e segurando o pau de selfie.

Outra vez o sinal fecha à minha frente, observo a multidão se mesclar na faixa de pedestres, e lamento ter me distraído com pensamentos recorrentes, em vez de ter aproveitado pra fazer uma foto pra ilustrar este post…

Sobre beijo na boca do pet, pau de selfie e confetes

Arte: Alyssa Monks

Arte: Alyssa Monks

Nunca, jamais em tempo algum o POEMA EM LINHA RETA, de Fernando Pessoa, me pareceu tão absurdamente apropriado, atual e sob medida para as carências nossas de cada dia, reveladas a todo instante nesse não-lugar chamado ciberespaço.

Pausa para a leitura do poema…

Voltando  ao assunto, se estamos carentes de elogios e reconhecimento de nossas qualidades e virtudes, não precisamos mais de uma boa ação, um ato de coragem ou demonstração de solidariedade com o semelhante, basta trocarmos a foto do perfil no facebook e tá tudo resolvido. Uma enxurrada de elogios e confetes rasgados vai inundar nossa timeline e nos fazer esquecer que acordamos com dor de barriga e com uma incômoda espinha dentro do nariz.

O filho dorme no quarto ao lado, mas em lugar de vencermos a distância entre a sala e a cama para abraçá-lo no dia do seu aniversário, publicamos em nossa página na internet o quanto ele é importante, lindo e perfeito e enfeita nossa vida. O abraço pode esperar.

Tudo pode esperar. A comida no prato pode esperar até que postemos a foto do que vamos comer antes da primeira garfada, porque as curtidas dos amigos compensam a bóia fria. Pra registrar o abraço, apelamos para o pau de selfie – a décima primeira praga do Egito.

É tanta urgência em contar o que estamos fazendo e o quanto somos brilhantes e importantes e indispensáveis que os filtros da sensatez e o corretor ortográfico que se danem. O que importa é registrar na legenda da foto que nossa “alto estima” tá lá nas alturas, porque, afinal, nossa vida é um conto de fadas, nunca levamos porrada e todos os nossos conhecidos têm sido campeões em tudo.

Comporta tudo nessa vida de faz-de-conta: viagens espetaculares para destinos paradisíacos, amores e romances de cinema, recado para mortos, foto do músculo da coxa contraído no momento do exercício no leg press, beijo na boca do pet, DRs, recadinhos desaforados para aquela amiga invejosa ou para o ex. Sim, porque só o outro tem defeitos, é imperfeito, mesquinho, medíocre, egoísta, e tá sem grana pra viajar para destinos paradisíacos.

Enquanto seguimos nessa toada de semideuses, vivendo aventuras dignas de super-heróis e estrelas de cinema, a louça suja espera na pia, o amigo espera a visita num quarto de hospital, o filho enche a cara, e alguém se joga da janela do quinto andar, mesmo tendo uma legião de amigos, seguidores e afins.

Na madrugava insone, matutava sobre a distância entre a vida concreta que temos que tocar a cada nascer do sol e a second life, e lembrei-me de um episódio contado por um amigo, sobre Théo, seu filho de quatro anos de idade.

Num típico almoço de domingo em família, jovens e adultos conversavam sobre carreiras, profissões, projetos e tal, quando alguém fez aquela clássica pergunta ao garoto:
— O que você quer ser quando crescer, Théo?
— Só quero ser uma pessoa normal. Respondeu o menino.
Sua resposta em linha reta significa pra mim a esperança de não morrermos atingidos pelo pau de selfie.

Portas em automático

BrasíliaDoAlto

Aconteceu de novo: outra vez queimei a língua com café, na pressa de que tudo parece se impregnar nos aeroportos. Ainda que o voo esteja dentro do horário previsto, check-in pronto, cartão de embarque na mão, temos pressa até quando não temos urgência.

Ato contínuo à decolagem, os pés firmes no soalho da aeronave me dão a ilusão de estar com os pés firmes no chão, me esquecendo dos tantos mil pés de altura que me separam da terra firme. Mas a travessia de uma área de turbulência me obriga a voltar para a realidade de que nada está sob controle, que a vida não oferece garantias, que tudo tá suspenso no ar, como aquela aeronave que deixou as nuvens lá embaixo.

Enquanto observo a cidade virar uma maquete luminosa, uma voz me alerta que “em caso de pouso na água…”. Como assim? Ninguém considera essa possibilidade ao escolher a roupa que vai vestir antes de embarcar para aquela viagem dos sonhos, de férias ou a trabalho. Mas ela existe – por mais assustadora que pareça –, e alguém se apressa em nos lembrar que o assento da aeronave é flutuante. Ah, bom (!).

Passados os primeiros momentos, aproveito que o telefone celular precisa permanecer desligado, e anoto num caderninho a lista de tarefas pendentes que pretendo dar conta assim que entrar em férias. Aí me dou conta de que a lista de pendências não pára de crescer: de exame médico o um fim de semana sem horário a cumprir, tudo agora torce que o avião não pouse na água.

Fazer caber nos dias tudo que na vida cabe é uma equação complicada. E seguimos queimando a língua e acumulando pendências no compartimento de bagagem.

Súbito o aviso de uma segunda área de turbulência me levou de volta ao totem do check-in do aeroporto, no exato momento em que precisei informar nome e número de telefone para contato em caso de emergência… Toda vez que me deparo com essa situação corriqueira fico em dúvida e hesito antes de decidir a quem a companhia dará a má notícia, se o acaso assumir o controle.

Quando um avião pousa na água ou faz um pouso de emergência e escapamos com vida, chamamos isso de milagre. E todas as vezes que pousamos suave no chão e voltamos inteiros para casa não significam igualmente um milagre?

UNOBTAINIUM

Ilustração capturada da rede

Ilustração capturada da rede

Intimidade não tem nada a ver com a nudez dos corpos. Intimidade tem a ver com o despir da alma, que oferece uma possibilidade de se enxergar sua singularidade.

Intimidade não é reparar na cicatriz que a cesárea deixou no corpo de uma mulher, mas entender o significado da maternidade para essa mulher.

Intimidade não é notar aquela estria na mama da mulher que ao filho amamentou, mas compreender o significado que esse ato de amor conferiu a ela.

Intimidade não é transar atendendo ao apelo que a proximidade dos corpos comporta, mas partilhar um lugar inominável fora da cama, fora do quarto, fora do labirinto da casa.

Intimidade não é conhecer marcas e cicatrizes que o tempo legou ao corpo de alguém. Intimidade é aceitar a história desse alguém e respeitar as lembranças que as marcas evocam. Intimidade não é desvendar a causa mortis de uma pessoa, mas compreender o que a move e comove e faz sua alma vibrar.

Intimidade não é exibição de aparências. Se fosse, páginas nas redes sociais e aplicativos digitais dariam conta da tarefa de estabelecer o elo e vencer o estranhamento entre pessoas. Mas não. A intimidade é uma vagarosa e delicada construção. E essa construção implica colocar os sentidos a serviço da intimidade. Implica disposição para escutar o outro, enxergar o outro e respeitar suas dores e conhecer seus temores. E ter a clareza de que para além do que os olhos vêem e as mãos tocam, dentro de cada um de nós há um lugar escuro e desconhecido, um abismo que só o amor dá conta de iluminar.

A intimidade, v a g a r o s a m e n t e construída, vai permitir que se vislumbre a beira desse abismo, à semelhança de quem chega ao cume de uma montanha, e ao contemplar sua imensidão compreende que toda a intimidade possível consiste tão-somente em tocar por um instante sua superfície.

Quem somos e do que somos capazes é um segredo desconcertante.

A intimidade talvez seja uma equação impossível.  Algo impossível de se obter. Unobtainable. Unobtainium.

Um lugar desconhecido

Ilustração capturada do facebook

Ilustração capturada do facebook

A realidade admite infinitas leituras, podemos observá-la de incontáveis ângulos, e isso tem efeito no modo como vivemos e nos relacionamos com o outro e com o mundo ao redor, porque a partir do nosso ponto de vista, vamos buscar elementos dentro ou fora da realidade que confirmem nossas premissas.

Se considerarmos a vida um fardo, vamos encontrar os argumentos que justifiquem que sim, a vida é um eterno pesar. Se considerarmos que a vida é algo extraordinário e que apesar da morte implacável, ainda é um privilégio estar e se sentir vivo, vamos igualmente encontrar os argumentos e fatos que comprovem ser a vida uma ventura sensacional que merece ser celebrada.

Se enxergarmos a vida como um padecimento, tudo mais se contamina da mesma substância psíquica, e corremos o risco de naturalizar o sofrimento, transformando a vida num desalento existencial. As relações afetivas e familiares, o trabalho, as amizades. Tudo vai parecer um sacrifício sem sentido, a requerer um esforço adicional para ser suportado.

Mas o olhar sobre a existência não precisa ser binário, também porque nenhuma das visões dá conta de tudo. Entre aurora e crepúsculo são infinitas as possibilidades que o território do olhar oferece. E qualquer que seja nossa atitude frente aos altos e baixos que o viver implica, no fim da jornada só o amor que demos ao mundo permanece no mundo.

Enquanto lia inscrições gravadas nas lápides de mármore, numa manhã luminosa de sábado, uma pergunta pediu a palavra: que lugar afetivo hei de habitar, amanhã, quando a morte que tudo traga tiver eliminado todas as minhas preocupações?

Para além do espaço e do tempo que nos cabe na vida daqueles a quem amamos, importa o lugar do afeto quando só restar a memória do que fomos.

Só conhecemos essa vida. E a ela precisamos dar algum sentido.

Eu também te adoro

Arte: by Marina Soares

Arte: Marina Soares

Atire seu LP janela afora (ok, o iPpod) quem nunca ouviu uma canção e se sentiu senão o autor, a inspiração. Como se alguém tivesse captado seu estado de espírito, aplicado um “salvar como…” e traduzido em versos suas palavras não ditas, ou não compreendidas ou até seus mais íntimos pensamentos. Ou então, num gesto de generosidade ou compaixão, o artista compôs uma trilha sonora para sua vida, ou para seu instante ou seu romance. Sim, todo romance tem uma trilha. Uma canção para embalar, marcar um instante, conectar. Uma canção que em algum momento da relação estabeleceu um elo, comunicou uma emoção, traduziu um sentimento, anulou distâncias.

A trilha mais genuína não é aquela que se escolhe propositadamente, mas aquela melodia que se coloca na cena. É ela que escolhe o romance (e também os não-romances), não o contrário.

Artífices de palavra cantada são capazes de expressar num verso um mundo de sentimentos e visões. De revelar um desejo que nunca dorme, unir pontas invisíveis e dispersas entre os amantes, construindo pontes entre os seres, porque a palavra cantada toca outros sentidos, e preenche os espaços da incomunicabilidade. Exemplo disso são as trilhas sonoras dos filmes a completarem a cena, segurando a narrativa quadro a quadro, acompanhando a evolução e as mudanças da trama do início ao fim.

Quero crer que no mundo real dos relacionamentos afetivos a palavra musicada também encontre lugar para alternar a melodia, assinalando o compasso na sequência dos dias.
Entre o mundo dele e o meu, “paciência” [Lenine] marcou presença em várias ocasiões, teimando em nos dizer que a vida é rara. Vez por outra dou ouvidos a Caetano e ouço um onde queres descanso, sou desejo; e onde sou só desejo, queres não… Mas há de haver, ainda, lugar para Adriana nos encantar com “vambora”, porque o que você demora é o que o tempo leva.

Codinome beija-flor

voo

Há seres que veem para esse mundo trazendo um defeito de fabricação. Nascem com o peito dilatado, que impede que desatem o aspecto afetivo da vida dos aspectos efetivos da vida. Uma espécie de filtro pelo qual passam todos os fatos vivenciados, atribuindo maior ou menor sentido ao existir. Um defeito que de outro ponto de vista pode ser considerado virtude. Uma combinação de sede e de fome de algo que dê conta do que não cabe na vida que se tem que dar conta.

A vida que se tem que dar conta não faz cerimônia porque concreta: faturas, fraturas, filas, louça na pia, o gato pra vacinar, boletos fantasmas, cheque pré-datado, cobranças, lixo, faxina, rotina, casa-trabalho-casa. Orçamento e sapatos apertados. Multas.

Enquanto se põe a planilha em dia, a vida que conta tem vergonha de existir: o sonho extraviado, o desejo engavetado, o projeto adiado, a voz calada, o adeus antecipado, o medo de arriscar ser mais feliz. A vida que conta é um rasgo na alma. Talvez o mais conveniente fosse fazer de conta que ela não existe, e continuar pagando multas.

Não para seres como Luíza, cujo coração se assemelha ao dos beija-flores – que possui maior proporção de volume em relação ao próprio corpo. Luíza quer mais da vida, dos relacionamentos, dos amores. Para ela, beijo técnico tá fora de cogitação.

Nossas conversas sempre descambam para os tormentos individuais, afetivo-sentimentais, por absoluta afinidade e concordância de que ainda que a vida prática esteja aparentemente em ordem, é na relação com o outro que encontramos a magia para “transformar o tédio em melodia”, tornando o registro da experiência pessoal menos miserável.

O desafio na relação – explica minha amiga – é equilibrar a medida dos quereres.

Tomara o amado de Luíza enxergue na clareza dos seus olhos escandalosamente verdes, que todo o querer que seu coração de beija-flor entrega não é carência; é desejo.