VIU COMO VOCÊ NÃO VIU?

 

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Imagem capturada do FB

Impossível escapar de um pensamento recorrente toda vez que o sinal fecha debaixo da plataforma inferior da rodoviária do plano piloto em Brasília, ou noutra avenida movimentada, e uma multidão de pessoas atravessa a faixa de pedestres, com a pressa de quem vai salvar uma vida. A própria vida, talvez. Pessoas de todas as idades e feições cruzam por um instante o caminho uma das outras pra nunca mais se repetir. Dá vontade de interromper o passo de uma delas, convidar pra sentar no gramado e pedir que me conte sua jornada: quero saber aonde vai com tanta pressa, o que faz, o que pensa, do que foge, do que tem medo. Nossos medos revelam muito sobre nós.

Se na pressa de atravessar a rua, as pessoas já não se enxergam, com os rostos concorrendo com a telinha do celular, adeus esperança de ser surpreendido com um olhar que se distingue em meio à multidão! Aliás, em qualquer lugar que se vá, todos nós nos tornamos estranhamente invisíveis. Ninguém enxerga mais ninguém porque tá postando foto do que não contemplou, apenas clicou e precisa mostrar pra alguém que também não vai ver porque tá clicando seus próprios passos. A não ser que se cometa algum deslize no trânsito ou no trato com o outro, você não será visto. Vamos de um extremo ao outro: ou sua presença não é notada ou vira notícia porque alguém filmou, fotografou e postou no ciberespaço, denunciando seu mau exemplo.

Parênteses: assim no espaço público como no ciberespaço, todo mundo aponta o pau de selfie para o outro (apontar o dedo tá ultrapassado). Mas isso é assunto para outra prosa.

Nesse nosso estranho tempo em que o semelhante se torna cada dia mais estranho porque desconhecido, outro curioso efeito é que os viajantes não têm mais história pra contar ao regressar. Ninguém mais conta as aventuras de viagem porque quem ficou sabe se o voo atrasou, de fez frio ou se calor, o que o viajante viu e o que ele não viu. Nessa toada, tem até foto de pessoas enfileiradas, de costas, de pé no corredor da aeronave no momento do desembarque, com registro do queixume de que levantar-se da poltrona antes da porta do avião se abrir, não faz o desembarque ser mais rápido. Pra não restar dúvida, o supercivilizado que fotografou a bunda das pessoas acrescenta a hashtag “fica a dica”.

Quem ficou sabe o que o viajante comeu no almoço, na janta e no café. Ah, e se foi o par que viajou, aí é que o reality fica divertido, porque ou o casal se entrega ao beijo, ou registra o beijo no cenário romântico! Nem que isso custe uma foto em que um dos braços aparece exageradamente desproporcional ao outro porque tá estendido demais e segurando o pau de selfie.

Outra vez o sinal fecha à minha frente, observo a multidão se mesclar na faixa de pedestres, e lamento ter me distraído com pensamentos recorrentes, em vez de ter aproveitado pra fazer uma foto pra ilustrar este post…

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2 respostas em “VIU COMO VOCÊ NÃO VIU?

  1. … bom ler novamente crônica sua. Quanto ao tópico, o troço ficou insuportável – acabei de ler matéria sobre problemas na coluna vividos por pessoas que se curvam o tempo todo pra digitar celular. É o fim, é o fim…

    Beijo

    • é o fim, poeta, mas o fim sempre toca o começo. E todo começo sempre oferece novas possibilidades.
      E eu que respiro a poeira da estrada, sigo com o “cisco” nos olhos.

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